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Aracnofobia - os primeiros cinco minutos de filme


 Apenas nos primeiros segundos da abertura do filme "Aracnofobia", toda a imagem, enquadramento, cadência e até mesmo a melodia - soou-me a "Parque Jurássico". Todos sabem que este último filme foi dirigido por Steven Spielberg mas... e Aracnofóbia? 

Para situar: Aracnofobia data de 1990 e Parque Jurássico de 1993.

Vi mais uns segundos do início do filme. Até ao ponto em que o fotógrafo encontra-se com o cientista na selva e todos sobem a montanha de helicóptero, numa sequência que revela a amplitude e beleza do local, ao mesmo tempo que é belo pode também parecer ameaçador, devido à pequenez do helicóptero que parece de brinquedo entre a paisagem. Em 5 minutos temos os créditos e a sinopse da história. Parei aí. As semelhanças são muitas. E a melodia... quer ficar no ouvido e ser escutada novamente. Combina tão bem com as imagens que me espanta que o filme não esteja ao mesmo nível de apreço que tem um "Parque Jurássico", um "ET", um "Tubarão", um "Salteadores da Arca Perdida".



Tive de ir espreitar. Estava a encontrar semelhanças, sabendo que não era o mesmo compositor ou mesmo director. Mas existem semelhanças. Será que é porque existe um padrão de captura de imagens e edição para cada género de filme?
~
Sim, essas coisas existem mas seria muita coincidência. Então fui ao site IMDB ler a ficha técnica completa de cada filme. A primeira coisa que meus olhos encontraram foi o departamento de edição. Mesmo a propósito: aqui é que se faz um filme. Se estava a ser familiar a cadência/sequência de planos e o casamento destes com a música, tinha de espreitar os nomes na equipa de edição. Coincidência: reconheci dois: Alan Cody e Patrick Cane. Assistentes de editor em AMBOS os filmes. Isto explicaria parte da familiaridade. Porém, foi quando fui aos diretores que tudo ficou mais esclarecido (e confuso). 

Aracnofobia foi dirigido por Frank Marshal em 1990. Frank foi o produtor de filmes como "Os salteadores da Arca Perdida" (1981), Poltergeist o fenómeno (1982), Indiana Jones e o Templo Perdido (1984), Gremmlins (1984), Os Goonies (1985), Regresso ao Futuro (1985).

Um currículo e tanto. Destes filmes, muitos são dirigidos por Steven Spielberg. A sua colaboração foi muito profunda, tendo feito parte da companhia de produção de Spielberg - Amblin, em 1980, onde permaneceu até 1991, altura em que só saiu para fundar a sua própria companhia, junto com a esposa. No ano seguinte ele foi para a Paramont e a esposa tomou o comando da Lucas Film. 

Foi um ano antes de sair da Amblin, em 1990, que Marshall se aventurou na direcção e dirigiu ARACNOFOBIA. 
Tinha portanto, uma relação próxima com Spielberg, era seu colega na produtora de cinema e tinha produzido vários sucessos de Spielberg: Portergeist, Gremmlins; Os salteadores da Arca Perdida, Indiana Jones...  Nada mais natural que, numa carreira tão cheia e tão influenciada por diversos artistas mas em particular por Spielberg, que Marchal tenha desenvolvido uma estética visual semelhante a muitos filmes que ajudou a nascer. 

A música porém... a melodia que abre o filme, é de autoria de Trevor Jones. Compositor com muitos créditos em cinema porém, um nome que mal se escuta entre os menos conhecedores. O que me surpreendeu foi saber que Frank Marshal é filho de um compositor e Maestro. Logo, deve ter desenvolvido uma sensibilidade maior para este género e a sua utilidade no cinema. Quanto a Trevor, vale a pena espreitar os filmes para os quais compôs melodias e, se possível, ir escutar algumas. 

E agora vou continuar onde parei e rever "Aracnofobia". Lembro-me que foi um filme que gostei muito. Quando passou novamente na televisão, gravei numa cassete VHS. (Quem se lembra desta tecnologia?). Como era meu hábito na altura, gostava de... editar. E guardar cenas de várias séries que gostava. Mas numa casa onde isso não era possível fazer, tinha de o fazer "escondido", gravando-as no finalzinho das cassetes. Para não desgravar muito, gostava de... Editar os filmes. Cortando cenas mais redundantes. É que, filmes, meus pais me deixavam manter. Mas nada mais que isso. Até a altura deles quererem por algo a gravar até a cassete acabar, por preguiça de programas. As cassetes eram película - algo que até hoje lamento que não continue, pois trazia muitas vantagens. A duração de gravação, sendo uma delas. Hoje mal consigo gravar 30 minutos com o telemóvel. Perco logo bateria, para começar, mas não tenho espaço suficiente, mesmo comprado cartões de 128 Gigas ou assim. As cassetes, sendo película, duravam várias horas. As VHS podiam ter até quatro horas - ou mesmo seis ou dez, como cheguei a ter. O que é muito vantajoso. Duravam muito mais se o formato de gravação escolhido não fosse o SP mas o LP - Long Play. Menos qualidade de imagem, mas mais fita.  

ARACNOFOBIA - o filme. Sobre a história irei falar depois, para não tornar este post mais longo. Viram o filme? 



PS: Mais uns minutos apareceu esta cena, do guia que os conduz até o local apontar numa direcção e dizer que ele não avança mais. Algo nesta cena soou... estranho. Talvez porque vi um índio que me fez lembrar a mini-série brasileira da extinta Manchete "O Guarani".  Mas a questão é que o dialecto falado é... espanhol. ESPANHOL... e índios.... Ah, uma pequena pesquisa me conduziu à Venezuela, e ao Monte Ruraima - um dos Tupuis mencionados apenas por palavra na intro do filme. Mas isso me conduziu à geografia. Sem dúvida que a equipa de produção fez bem a sua pesquisa e a cena de abertura é deslumbrante, mostra paisagens únicas deste grupo de Tupuis (Formações rochosas pré-divisão dos continentes planas no cimo devido à erosão de milhares de anos de vento), uma extensão de 31 Km que abrange três regiões: Brasil, Venezuela e Guiana, na região amazónia.

Um local que agora fiquei com vontade de conhecer. Mas devido às condições, isso dificilmente vai acontecer. É aqui que dá vontade de fazer parte da equipa de produção de um filme como este. Viaja-se muito e conhecem-se lugares únicos. É uma profissão que enriquece muito, a nível pessoal. 

Guerra no PLANETA DOS MACACOS (2017)



Estrelas. 7,5/10

O que não gostei neste filme?
Das expressões faciais demasiado humanas de César.
Dos seus olhos 100% humanos.
Dele falar inglês com os seus macacos que falam em linguagem gestual.
Da sua voz.
Da morte do seu filho, que havia evoluído como personagem e que por isso merecia ter continuidade



Gostei mais do filme anterior - Planeta dos Macacos, a revolta (2014). Em termos de enredo e de consistência. "César", falava inglês só quando precisava. Não quando é conveniente para a audiência! Os calões que não gostam de ler legendas nas salas de cinema que se lixem. Nesse aspeto, o filme anterior é mais coerente.


A história:
A guerra entre humanos e macacos continua. Mas desta vez a coisa está mais mesclada. Embora seja um entretenimento e tanto, com cenas verdadeiramente bem feitas, achei a história contada de modo mais fraca. No ritmo, nas emoções, nas sequências e até na motivação de César. Existe alguma predictabilidade e extraordinárias, diria até que impossíveis, escapadas a morte certa. Mas o que mais se nota é a conveniência, o que se traduz em alguns clichés, inclusive de personagens-tipo, elementos que considero menos destacadas em filmes anteriores. 

O que gostei:
Do início. A sequência inicial é simplesmente brutal. Não por causa dos efeitos especiais mas pela carga informativa que contém e a forma brilhante como é transmitida. Adorei as mensagens nos capacetes e toda aquela sequência bélica vista de cima, como se fossemos meros observadores omnipresentes, assistentes contemplativos que não podem intervir e só podem lamentar e chorar. Como quem vê de fora sem estar de corpo presente. A carga emocional e a capacidade de resumir toda a história em poucas imagens é feita com mestria. Sem ser necessário meter os personagens a fazer o «resumo» dos filmes anteriores, o que seria de um grande amadorismo e preguiça indesculpável.   


O que destaco:
Continuo a achar impressionante o facto destes filmes conseguirem a proeza de colocar toda a humanidade a torcer pelos macacos, a chorar por e com eles e não lamentar nem um segundo as mortes humanas. Aliás, os humanos morrem aos molhos nos filmes do "Planeta dos Macacos" e nós, que somos dessa espécie, assim o desejamos. Estamos o tempo todo a torcer pelos macacos. Que se comportam como a espécie pacífica e realmente humana.


Algumas opiniões mais detalhadas com as quais concordo



Get Out! - Corra (filme 2017)



Estrelas: 8/10

Adorei este filme!
Achei-o surpreendente, firme no enredo, verosímil na história.




Chris e Rose são um casal inter-racial que vão passar um fim-de-semana à casa dos pais dela. Pela primeira vez, Rose, de etnia branca, vai apresentar o namorado, de etnia negra, à família. Será que eles vão ter algum problema com isso?

Rose garante que não - pois o pai até votaria em Obama para a presidência por um terceiro mandato, se pudesse. E de facto, quando Chris chega à enorme mansão da família, é bem recebido. Ao mesmo tempo algo estranho se passa. Nenhuma conversa é mantida sem se fazerem referências à sua cor de pele. Num convívio social - pois coincide que nesse fim-de-semana é também a altura do ano em que a família reúne todos os amigos influentes em casa - Chris é até apalpado pelos seus músculos, como se fosse uma peça em leilão no tempo da venda de escravos.

Mas o que Chris mais estranha são os dois empregados da casa - ambos negros como ele, mas com um comportamento estranho, que oscila entre o doente mental e o normal. Naquela casa, os empregados vestem-se e falam como se vivessem nos anos 30...

Numa tour ao lar, o pai de Rose, cirurgião, faz questão de levar Chris até às fotos da família, onde aponta para o retrato do seu falecido pai, um ex-atleta de salto e corrida que participou nos Jogos Olímpicos de 1936, na então Alemanha nazi. O que aconteceu nesse ano que ficou na história? Jesse Owens, um atleta Americano de origem africana bateu todos os outros - inclusive os de raça ariana, (que a propaganda de Hitler dizia ser de raça superior) e conquistou o primeiro lugar num pódio.


Conforme dá para entender, as conversas giram em círculos mas parecem sempre ir ter a um tema em particular: raça - brancos e negros. 

De todos os membros da família que Chris foi conhecer, a mais «normal» parece ser a mãe, psiquiatra de profissão. Isto até o momento em que Chris é convidado a entrar no escritório dela... e esta usa um trauma de infância de Chris para o hipnotizar.

Se as coisas eram estranhas até aqui esperem só até os restantes convidados chegarem...


Não vou contar mais sobre a história mas quero reforçar o quando gostei do filme e que partes me surpreenderam mais. 

Uma delas foi o desfecho. Quando surge um veículo com luzes azuis e vermelhas a piscar pensei que ia ser um desfecho típico dentro daquelas circunstâncias: finalmente, chegava a polícia. E infelizmente para o nosso «herói», o polícia ia ser o mesmo que o parou na estrada na viagem até ali. 

Surpreendeu-me esse final.

Outro aspecto que gostei foi o de perceber que a personagem idiota do filme, aquele tipo que só pensa e diz parvoíces é, afinal, o que está certo o tempo todo. Ahahah. Bem feito para todos os «normais» que julgam que os «idiotas» nunca podem ter razão. Kkkk.


Também me surpreendeu o real motivo de toda aquela movimentação. Pensei eu que hipnose era o máximo do que ali acontecia com certas pessoas mas, afinal, tudo está muito mais conectado e enraizado... Não sei se a invasão, ao invés da adopção, seria a opção escolhida se, de facto, a noção de racismo fosse a questão fulcral - que não é. O surpreendente do filme também é isso. A questão principal é na realidade outra e são duas: o desejar viver para sempre e o viver para sempre jovem, saudável e em super-forma.

Neste sentido o filme mostra que a "raça superior" é outra - e a sua «escolha» em nada recaí sobre conceitos de racismo, mas em conceitos de biologia.

Então não deixa de ser engraçado e, mais uma vez, surpreendente, quando, mais para o final, percebemos quem são as pessoas a quem Rose chama de avó e avô...



Um filme a não perder.
Ah, e falta mencionar o quanto torcemos pelo «herói» no final e apreciamos quando inescrupulosamente este começa a virar o jogo... 


Cenas pouco credíveis que «arruinariam» a história se esta não nos agradasse tanto:

1- A cirurgia começar sem a presença do principal elemento (a sequência não me parece muito lógica).

2- Não resistirem a mostrar uma poça de sangue a jorrar da cabeça de um indivíduo (que, no mínimo precisava de ter tido o crânio rachado, presumo eu) e fazerem como naqueles filmes em que um tipo é baleado não se sabem quantas vezes e continua a vir atrás e a perseguir.... Só para mostrarem um elemento crucial referido duas vezes: na abertura do filme e durante o jantar de família. Contudo, apreciei esse elemento. 


Também achei no youtube esta pequena paródia aos elementos do filme e fartei-me de rir. Por isso não deixo aqui nenhum trailler - pois este denuncia tudo o que surge no filme - mas a paródia. A ver se chegam lá.... eheheh.


C.H.I.P.S.


estrelas: 8/10

VI este filme sem grandes expectativas. Esperava mais uma comédia aparvalhada sobre dois polícias que não se conhecem e não gostam um do outro mas acabam bons amigos após serem forçados a trabalhar em parceria. Com recurso a piadas fáceis, em larga maioria fazendo referência a sexo e obstipação.

Mas enganei-me!!
O filme CHIPS é muito melhor do que esperava.
Não me entendam mal: claro que, como comédia enquadrada numa investigação policial liderada por dois polícias, o filme engloba sexo e piadas fáceis. Mas não as considerei de mau gosto ou vulgares. É saber fazer humor de forma respeitosa, não deixando de recorrer aos mesmos elementos, mas dispondo-os de forma adequada. 



As personagens têm profundidade - não são superficiais nem os seus «problemas emocionais» ficam pelo óbvio que se resolvem em dois segundos de conversa «séria». Ambos os polícias, à sua maneira, têm personalidades distintas e credíveis, acaba-se por acreditar no processo evolutivo da amizade entre os dois.

Os vilões também têm surpresas e profundidade. Hurrai para o vilão-mor, que conseguiu fazer uns olhinhos de profundo pesar que comove qualquer um. Quero dizer: sabemos que ele é o «mau», que matou amigos e é ladrão, mas, ainda que o filme tenha recorrido ao mesmo pretexto para fazer com que o vilão procure a vingança (não vou dizer qual o recurso mas ao verem o filme vão entender que é cliché), não se sente como algo repetitivo. Senti a emoção da dor do vilão e isso é algo que qualquer um de nós consegue entender. Neste filme de comédia, não aprofundam muito o lado dos vilões, mas também não são desprovidos de alguma história e profundidade que se adivinha ao se conhecer essa história. 


Depois tem as situações em que os polícias se vêm inseridos. Também aqui acho que o filme está acima da média. Temos as típicas situações de perseguição policial e acrobacias «forçadas» no guião, mas que aqui acabam por encaixar um pouco melhor que o habitual. Ao contrário da maioria dos filmes do género, comédias que mostram violência e explosões, aqui as pessoas de facto morrem... Ou só podem ter morrido. O filme não se foca muito nesse aspecto mas, ao contrário de muitos outros tipo os que o Mel Gibson protagonizou com a Goldie Hawk, quando existem cenas de perseguição nas ruas ou em lugares públicos onde a vida de inocentes corre risco, não são só as roupas estendidas em varais e as bancadas de frutas que são albarroadas com um veículo em excesso de velocidade. Neste filme, as pessoas também são! O que seria bem plausível na vida real.

Existe até um momento - um momento de piada fácil mas que achei fantástica. Uma carrinha policial está em perseguição e ao dobrar uma esquina, está uma celebridade a sair de um automóvel com uma série de pessoas à sua volta. O embate é inevitável e dois homens com mochilas e máquinas fotográficas recebem o impacto e são projectados pelo ar. Uma fracção de segundo foi o que mostraram dessa cena, mas pessoalmente, admirei-a, fiquei assutada por me mostrarem algo que pode ter resultado na morte de dois inocentes mas gostei que a tivessem feito. SEM a seguir mostrarem os dois totalmente ilesos mas estendidos no asfalto, a fazer um manguito para a carrinha - como que a assinalar à audiência que não lhes foi incutido nenhum dano maior e por isso esta pode relaxar e continuar a ver o filme despreocupadamente.

A piada foi que a condutora do veículo, assustada pelo embate, pergunta ao polícia que está com ela:
-"Meu Deus! O que foi isso??!"
E este, olha para trás e ao ver o cenário com que se depararam, responde:
-"Ah, está tudo bem. São paparrazi".

LOL.
Muito bem metida! A piada... A crítica. A comédia, o estarem a dizer que a vida de paparazzis é insignificante pela actividade em si - não pela vida humana, claro está. 


Do todo, o que considero mais fraco no filme é a história policial de investigação que serve de base às personagens. O facto dos dois policiais discutirem os factos do caso em frente de um by-standart é muito cliché (um tipo de uma imobiliária que lhes mostra uma casa que foi habitada por um suspeito e abandonada). Quem é que no seu juizo perfeito ia dizer, ali, na frente de um desconhecido, o nome do suspeito, o que ele fez ou deixou de fazer? Mas pronto... foi o único cliché mais irritante do filme, no meu entender, e durou poucos segundos. Talvez quisessem encurtar o filme uns segundos com uma cena obvia e rápida como aquela.

As brigas e cenas de pancadaria estão muito bem feitas. A comédia física está muito bem planeada e o filme, neste e em todos os sentidos, é muito bem realizado. Parabéns ao diretor. 
Claro que uma cena memorável por estar bem feita é quando um dos heróis se vê numa situação de vulnerabilidade e precisa pedir ajuda ao colega. O tipo caiu e ficou sem conseguir se mexer. Tinha acabado de acordar, de sair da cama... e estava nu, pois dorme nu. Era uma situação que tinha tudo para ser feita e apresentada à audiência de uma forma cliché e sem grande credibilidade. Mas não foi. GOSTEI da forma e de como os outros assuntos se encaixaram. A informação que o espetador recebe daquela cena esclarece muito em termos visuais e é ali que vemos e acreditamos que a relação dos dois se cimentou na amizade.

E pronto. Vejam o filme.
É bem melhor do que seria de esperar.
Talvez passe debaixo do radar, mas vale a pena.

PS: Acabei de verificar que o site Rotten Tomatoes não recomenda este filme.
Talvez seja uma boa razão para o irem ver. Já que este site está cada vez mais bambo das pernas no que respeita à maioria das avaliações que faz. Já a audiência que avalia filmes no site, fornece uma apreciação três vezes mais elevada.



Lua de Mel, Lua de Fel



Estrelas: 10 (de 10)


Nem sei como ainda não falei deste filme que foi por muito tempo um dos meus favoritos.

Lua de Mel, lua de Fel (Bitter Moon - 1992) passou nos finais dos anos 90 na televisão, bem de noitinha. Comecei a ver e nunca perdi o interesse. Senti contínuos nós no estômago. Senti revolta. Apeteceu-me xingar o mocinho com todos os nomes feios possíveis e impossíveis. 

O filme foi exibido com bolinha vermelha por conter muitas cenas em que se fala de sexo de forma explícita e detalhada. Também se deixam ver orgãos genitais - femininos, claro. Mas na minha opinião, a «bolinha vermelha» assinala uma obra-prima na qual o que mais no choca não é a nudez, e sim a linguagem crua e real. 

Fiona e Nigel
Resumo: Nigel é um homem pacato em viagem num navio cruzeiro com Fiona, sua esposa. O casal inglês procura assim reacender a chama do seu casamento embarcando numa viagem de segunda lua-de-mel rumo à mítica Índia. Numa ocasião sozinho no bar, já que Fiona enjoa com o balanço do barco, Nigel sente-se totalmente atraído por uma bela mulher que vê a dançar. E muito sem jeito passa-lhe uma cantada. Pensa estar a ter sucesso mas... está redondamente enganado. Aquela mulher de vermelho com sotaque francês vira uma obsessão e para saber mais sobre ela e a tentar levar para a cama Nigel revela-se um homem com um carácter bem diferente daquele que transmite para fora e julga ter.

Um filme soberbo - na minha modéstia opinião. Com boas atuações de parte em parte. Talvez a mais crua seja exatamente a da «bela mulher de vermelho», a atriz francesa Emmanuelle Seigner, na altura e ainda presentemente, esposa do diretor do filme, Roman Polanski. 


Adorei a linguagem do filme, as verdades cruas, a forma como os personagens que pareciam os mais desprezíveis também eram honestos e transparentes. Adorei o sarcasmo, as ironias (que são muitas), entendi que não podia ter existido outro final, que se fechou o ciclo e aquele derradeiro gesto foi, no fundo, um de altruísmo. Que acabou por ser a salvação do casamento do jovem casalinho britânico - aquelas últimas horas no navio cruzeiro os fez crescer como nunca e solidificou a sua união até então em risco de ruir.

Mimi e Óscar
Falta ainda mencionar talvez a personagem mais importante de todas. Porque é ela que nos vai enojar. É ela que vai conduzir a história. Óscar, o marido da bela e jovem Mimi - a mulher de vermelho. Escritor americano, assim que vê Mimi num autocarro apaixona-se por ela. A jovem tem o sonho de vir a ser bailarina e acaba por se apaixonar também perdidamente. Os dois vivem em pleno clima de lua de mel, só sexo, só quarto, só amor. Mas não se vive só disso e o resto da vida se impõe: os sonhos de carreira como bailarina, os delírios de um escritor em escrever a sua grande obra prima. A relação dos dois passa então por um momento baixo. Depois vira cruel. Torturosa. Mas apesar disso, ainda com amor. Tudo vai um pouco longe demais... E então os dois, já muito diferentes do que eram quando começaram, decidem partir num cruzeiro... A ver se a coisa tem conserto ou faz sentido. Mas tem? Ambos sabem a resposta. Ambos se amam. Mas o amor basta quando tanta coisa o maltratou? 


Óscar e Mimi acabam por encontrar em Fiona e, em especial, em Nigel, um divertimento para as suas vidas já tão desgastadas. O casal inglês passa a ser o novo entretenimento do escritor e da ex-bailarina. Situação que agrada a Nigel, convencido que está que vai conseguir levar Mimi para a cama, sem que a sua esposa fique a saber. Ele até providencia uns comprimidos para o enjoo que vêm mesmo a calhar... Mas Nigel não é páreo para Óscar ou Mimi. Na realidade, nem para Fiona.


Categoria: Romance Erótico/drama
Estrelas: Dez

A Medalha de Bronze (The bronze) - 2015/16


08 estrelas (10)

Bastou-me olhar para o poster deste filme para sentir que ia valer a pena ver. Não me arrependi. 

Ao invés de ter as suas bases assentes em comédia disparatada, com pouco sentido e altamente exagerada e caricata “A medalha de Bronze” assenta na mensagem. Descreveria a história mais como um drama pessoal, envolvendo uma personagem central mas também outras secundárias, contado de forma evolutiva e com humor. 

Hope é uma ex-ginasta olímpica medalhada em 2004 com bronze. Ficou famosa por se ter lesionado e ainda assim ter feito o exercício, o que lhe valeu o 3º lugar no pódio. Na sua pequena cidade Natal, onde ainda mora, ela é a vedeta. Não obstante, vive amargurada e revoltada com a vida, pois a sua carreira como ginasta terminou logo a seguir. Ela só sai à rua usando o fato desportivo das olimpíadas de 2004 e mantém o visual de uma ginasta: franjinha direita e cabelo preso num rabo de cavalo. Tudo à sua volta tem as cores nacionais, recordando todos o que ela já fez pelo país. Desde os elásticos para o cabelo, ao pijama, as canecas de leite e até a entrada para o seu quarto, local recheado tanto de medalhas e troféus, como de peluches. 


Os estabelecimentos locais têm uma foto dela afixada na parede e ela espera receber tratamento especial, como por exemplo, não pagar pela refeição no “MacDonalds” local. Até a marijuana que fuma não é paga, ela espera que lhe seja dada devido ao estatuto de estrela de ginástica. Mimada e verbalmente abusiva, Hope vive com o pai, a quem dá pouco valor e menospreza. Quando lhe convém faz questão de relembrá-lo que perdeu a mãe aos seis meses de idade, uma chantagem emocional que não escapa à inteligência do pai. Ela também o rouba, ou melhor, aproveita-se deste ser um mero carteiro, arromba-lhe a carrinha com a correspondência e abre tudo o que contém dinheiro. O pai percebe e tenta chamá-la à atenção. Quer que ela reaja, arranje um trabalho, deixe de estar presa no seu passado de estrelato. 

É aí que a sua ex-treinadora, dona de um ginásio, comete suicídio. No dia a seguir o pai de Hope entrega-lhe uma carta da ex-treinadora... E a vida de Hope começa a mudar. Gradualmente, vê-se forçada a treinar a próxima grande promessa em ginástica, uma menina que, se tiver sucesso, vai substituir Hope nos corações do povo da cidade e privá-la do que ainda lhe resta: as suas regalias de estrela local. O que irá Hope fazer?


O filme está bem feito, assenta numa boa história e espelha bem o mundo da ginástica competitiva. Pelo lado da importância do estatus, pelo lado da fama, do trabalho, dos treinos, e da personalidade. Tem uma cena em que Hope ensina a sua pupila a importância de parecer graciosa em cada gesto e sorrir, pois as câmeras estão a registar cada detalhe e os patrocínios obtém-se pela simpatia. Um primor, numa crítica psicológica que não é exagerada nem vulgar. Tem ainda o bónus de mostrar que Hope ficou muito atrás nos seus estudos, faltando-lhe conhecimentos até rudimentares, pois a sua infância foi dedicada à ginástica e coube ao pai, cheio de boa vontade, ensiná-la em casa o que se aprende nas escolas.


Com uma memorável cena de abertura – que pode chocar os mais sensíveis, o filme resume tudo o que acabei de escrever em poucos minutos. Foram precisos muitos mais para reconhecer Melissa Rauch, que faz de Bernadette na série a Teoria do Big Bang, como a intérprete de Hope. Mas sobre cenas memoráveis o filme ainda nos reserva a cena de sexo... Para elogiar também fica o impressionante trabalho de praticamente não se notar o uso de duplos para as cenas de ginástica ou... outras.


O filme aposta na linguagem ordinária, mas não é ordinário. Para quem viu filmes com Adam Sandler - qualquer um, mas em particular o último “The Do-Over”, este não é esse tipo de filme. “A medalha de Bronze” consegue estar vários patamares acima e pertence a outra categoria totalmente diferente. É um filme com uma história, onde todos os personagens têm profundidade, mesmo todos. O que, no panorama de comédias parvas de Hollywood, é refrescante e digno de medalha de ouro.

Trailler oficial

Entrevista com o "Tiques" e o "Engatatão"

Little Boy - a esperança e a última a morrer


06 estrelas (10)

Em precisamente 3 minutos do filme, contando com a abertura e os anúncios publicitários, pensei:

-"Já vi a Vida é Bela. Não preciso de ver uma tentativa de imitação deslavada, com maus interpretes e cenários com ar falso".

Mas ainda bem que dei uma oportunidade e continuei a ver "Little Boy". 


O filme não é nada que não se tenha visto antes. É uma junção de histórias conhecidas que se desenrolam de forma conhecida e com o final de sempre. Mas é um bom filme de família. Agradável de se ver. O miúdo é agradável à tela e, quando fica zangado, corta de imediato com o ar angelical e passivo que a sua personagem deixa transparecer nos primeiros minutos da história. O pai é pavoroso, muito mal interpretado, mas felizmente temos de o aturar por pouco tempo. As melhores interpretações, a meu ver, vão para os atores que fazem de Padre e de Médico. Entre todos, são os que acreditei serem o que são e não atores a fingir que são.

Não é um filme ícone, não vai levantar ondas ou causar grande impacto. A pesar de agradável, não consegue estabelecer empatia com o público, estamos a ver uma boa história mas não estamos envoltos nela. "A Vida é Bella" foi um filme cómico sobre uma tragédia. Tinha partes de pouca credibilidade mas conseguia envolver bastante o espetador. No riso, viamos o pavor e o medo. E teve o seu final feliz, igualmente milagroso. Tudo porque existiu Fé. Little Boy propõe-se ao mesmo mas não chega nem perto de atingir estas metas. Não deixa, no entanto, de ser um filme agradável, daqueles cada vez mais raros de existir: o filme para toda a família.

Esvendrar, esquartejar, mutilar - Doce Vingança só tem uma destas situações, mas nem precisa de mais para ser mais assustador que muitos do género


Doce Vingança em português ou I Spit on Your Grave no original, é um filme de terror americano de 2010. Só o vi agora e... recomendo.

A história foca-se na retaliação de uma jovem que é violada em grupo e só não é assassinada de seguida por ter conseguido escapulir-se. Os seus infractores a julgam morta, mas preocupa-lhes a ausência de um cadáver. 

No início não ia para ver este filme. O poster sugestivo e dramático (miúda quase nua a mostrar o rabo e muito sangue à volta) faz o género que me repudia ao invés de dar vontade de assistir. Mas a sinopse de vingança pareceu interessante. 

É um filme desconcertante, sabemos que aqueles homens são cruéis e repetiriam o tipo de crime tantas e quantas vezes fossem possíveis. Mas isso não impede o espetador de sentir dó pela forma como cada um é eliminado. Um bom jogo de palavras na altura da retaliação e uma imaginação fantástica de metedologias. É caso para perguntar: QUAL A SUA PREDILETA?

Classificação: 09 estrelas (10)

Poltergeist - o Remake (2015)


09 estrelas (10)


Logo nos primeiros minutos uma pessoa sabe que vai gostar da estética do filme. Muito fiel ao original, contudo, modernizado e inovador nas cenas emblemáticas.

"Poltergeist" (2015) inova, ao mesmo tempo que brinda o espectador com tudo o que ele gostou no original. Começo a dar como exemplo a cena de abertura do filme. Inicia-se com um jogo eletrónico em que se mata Zombies. No carro, a jogar no tablet, está o filho do meio do casal «Diane e Steve», aqui re-apelidados de Eric e Amy. Robbie no original, aqui tem o (pavoroso) nome de Griffin. Com ele no carro viajam as duas irmãs: Madison, a mais nova dos três e Kendra, a adolescente. 

Só esse início é espetacular. Porque nos introduz vários temas e confirma ao espectador que este filme de horror também vai ter os seus momentos de humor, uma característica que marcou o primeiro filme. Ao colocar a nova tecnologia do tablet na trama, o autor aproveita para dar um toque de ironia ao que estará para vir. "Griffin" não sabe que o espera uma luta real com figuras parecidas a Zombies. É também durante essa viagem de carro rumo à casa nova que ficamos a saber que ele sofre de uma doença qualquer. 


E o carro chega ao seu destino, num enquadramento que em tudo elogia o original: a câmara movimenta-se em panoramica geral, numa vista de cima de todas as casas do bairro. Uma escolha de Spielberg em 82 que acabou por definir a identidade do filme. A câmara só para quando se posiciona nas traseiras da casa, com a família na frente. Uma imponente árvore domina a paisagem, diferente de todas as outras nos arredores, alta, bem ao lado da janela do sótão.

Em apenas 5 minutos na história, o fã percebe que está diante de um produto novo, mas que em tudo respeita a identidade do original. Depois desta panorâmica, um plano muito geral mostra-nos a nova casa vista de frente. Lá está a imponente árvore. 


É altura da família se instalar. Antes de entrarem na nova casa, o casal estica os braços e dão um ao outro um High 5, cumprimento que simboliza o seu optimismo por uma vida nova e também a sua cumplicidade. A relação entre o casal e a forma como disciplinam e educam as crianças é, sem dúvida, uma mais valia no filme original. "Diane e Steve" conseguiam transmitir a cumplicidade de quem vive há anos juntos, se ama e sabe muito bem como querem criar os filhos. Nesta versão, esta é, lamentavelmente, a única coisa que falha - como se vai perceber mais à frente. 

Madison fala sozinha, com os seus amigos imaginários

Subindo as escadas que levam ao andar superior, onde estão os quartos, Griffin vê a irmã caçula a falar sozinha para a porta de um armário. E quer saber com quem ela está a falar. Criança receosa, Griffin fica intrigado e vai para abrir o ármário, quando o pai surge para fazer exatamente o mesmo, mas sem sucesso. As portas estão penras e uma das maçanetas desprende-se. A família muda-se para aquela casa equipada com novas tecnologias e a pequena criança brinca pelos cantos. Encantada e divertida.

No jardim, Madison espeta um pau fundo na terra e diverte-se quando o vê subir. Começa assim, de forma muito subtíl, os primeiros «estranhos sinais» do paranormal que vai aterrorizar a vida destas pessoas. Nesta versão não existem cadeiras que se emparelham umas em cima das outras, nem a cena de «escorrega» no chão da cozinha. O filme prima por se manter fiel aos princípios mesmo introduzindo novas situações na história, até porque 35 anos se passaram e o mundo está diferente, principalmente nas tecnologias. Estas alterações em nada destoam, apenas complementam a narrativa, servindo como introdução ao que poderá estar para vir. 

Uma excelente panorâmica superior noturna volta a apresentar um elemento chave na trama: o quarto de Griffin, visto pelo exterior, do local da árvore. É hora de dormir.


Foquemo-nos agora na adolescente. No primeiro filme uma típica rapariga rebelde, focada em si mesma, somente interessada na sua vida social. Aqui passa-se o mesmo mas foi removida a independência característica dos adolescentes dos anos 80, que combinavam ir dormir à casa uns dos outros por vários dias e quase não davam «cavaco» aos pais. Nesta versão ela pode satisfazer a sua vida social sem sair de casa - dispensando mais o contacto real. Uma característica que merece destaque, pois é uma das mais significativas situações sociais geradas pela evolução nestas décadas. 

As interacções sociais mudaram radicalmente nos últimos anos
Kendra fecha-se no quarto a falar no chat. Com o computador no colo e com a TV acesa, ela e uma amiga comentam que vai começar um programa que adoram assistir, "Haunted House Cleaners", sobre um homem que vai “limpar casas de espíritos”. E as duas raparigas ainda acham piada e fazem troça do chavão que ele usa: “ESTA CASA ESTÀ LIMPA” (This house is clean) – uma imediata alusão ao que diz a medium Tangina no filme original, no final de toda aquela odisseia que resgatou de volta a pequena Carol Anne.

Neste Remake notam-se os cuidados que tiveram nos detalhes para as personagens. A adolescente é loura e não morena, a pequena criança não é loura e sim morena, mas mantém o comprimento do cabelo e o corte com a franjinha. O rapaz tem o cabelo louro. As mesmas características, mas no oposto, portanto. A equipa é constituida por uma mulher de baixa estatura - não deixaram de incluir esse detalhe de interesse. E é ela o elemento negro. E, refrescantemente, a medium é um homem, com chapéu e roupas escuras (não conseguem resistir ao cliché colocado pelo filme “O Exorcista”). Acho que é uma boa decisão. Dificilmente uma mulher conseguiria suplantar o efeito que teve a primeira, com as suas carateristicas físicas tão particulares. E nem deveria. Talvez em toda a história, a excepção mereça estar aqui. Afinal, quem mais poderia interpretar aquela figura? Além disso, esta alteração retrata com mais realismo a sociedade actual e o tipo de programas que povoam a televisão: programas sobre o paranormal, caçadores de fantasmas, médiums.... Muito boa escolha mesmo. 

A subtileza com que é apresentado um elemento que será importante na história
Quem se lembra que existe uma crítica social sobre um programa de TV no filme Poltergeist de 1982? Um indicativo sobre os programas da preferência do público naquela década - "60 minutes" e "It's Incredible". Programas onde tanta vez se exploravam temáticas mais «estranhas», ficando claro no filme que o casal os consideravam sensacionalismo e com nenhuma credibilidade jornalística. Mas tinham muita audiência e eram o "hit" da altura. 

Nesta versão de 2015 os principais elementos são mantidos e, assim, esta nova família continua a ser composta do casal e seus três filhos. Mas não existe cão, nem canário, nem peixinho dourado. Também foram retirados da trama aqueles vizinhos estranhos, que não sentiam a picada dos mosquitos e se recusaram a ajudar "Diane" quando esta escorrega para o buraco da piscina no seu quintal, no meio de uma chuva intensa. Desta vez não existe piscina sequer e essa circunstância que no primeiro filme tinha o único propósito de facultar um forte impacto visual, trazendo o medo e o terror por se avistar o primeiro de muitos esqueletos e a possibilidade de afogamento, é retirada da trama. 

A cena em que o assistente da equipa que vai à casa estudar o fenómeno paranormal entra no banheiro e tem uma visão da sua cara a derreter frente ao espelho, aqui não é reproduzida mas mantém-se na trama com um twist: essa alucinação é sofrida por Eric, o pai de família, após abrir a torneira da cozinha. E todo o episódio psicótico decorre no reflexo cromado do tubo da torneira. 


Uma decisão original que faz sentido se formos a reflectir na quantidade de vezes que já vimos, nas últimas décadas, o poder das imagens Geradas por Computador, que conseguem não só derreter rostos, como criar dinossauros, extra-terrestres e todo um «museu» cheio de criaturas bizarras com bastante realismo. O poder da cena no original reside, até hoje, na ausência dessa tecnologia e no efeito obtido por outros recursos. Se ainda hoje é forte, é porque é «outra coisa», que a CGI (computer generation Image) não consegue emocionalmente reproduzir.

O filme só peca por não criar uma ligação emotiva e conflituosa. 

No roteiro que Spielberg filmou, o casal "Steve e Diane" eram da geração hippie, ainda gostavam de fumar um charro ou outro de vez em quando, davam liberdade aos filhos e por vezes nem sempre concordavam, mas se amavam e, acima de tudo, respeitavam-se e apoiavam-se um ao outro. E depois tinham problemas financeiros, o emprego de "Steve" podia estar em risco, tinham investido tudo o que tinham naquela casa, que para eles era um sonho de uma vida. Além disso, quando este sonho desmorona, a filha caçula desaparece de forma inexplicável e só é escutada no aparelho de televisão, o casal sofre, cada qual à sua maneira. Com a chegada de estranhos que supostamente podem resolver o caso através da sua experiência profissional no estudo da paranormalidade, a descrença do pai está patente na atitude, misturada com o seu sofrimento, o seu sentimento de que falhou a proteger os filhos e a sua incredulidade perante o que está a viver. Ele não consegue dormir, ele está a ser pressionado pelo patrão, ele tem de ocultar o pavor que está a viver dos outros. "Diane" por sua vez, consegue passar aquela sensação de mãe-leoa, que não se trava a nada para proteger a sua família. E que tenta ser forte, procura apoio no marido quando está mais em baixo e tenta conhecer os estranhos que lhe entram pela porta a dentro, acabando inclusive, por estabelecer um pouco de afeto e cumplicidade no curto espaço de tempo que dura toda aquela tragédia. Enfim, existe muita coisa que nos é dada na primeira versão de uma forma que quase não damos por ela, e que nesta nova versão está praticamente ausente. 

Nesse sentido fica a minha pior crítica. Os pais deixam a desejar. A sua cumplicidade é plastificada. Nas últimas décadas do cinema as relações entre casais heterosexuais bem sucedidos têm sido retratadas com plasticidade, como se todos tivessem um pau enfiado no rabo. 

Nesta versão, os pais não tinham sido apresentados a quaisquer fenómenos estranhos até o momento de chegarem a casa e depararem com o filho pendurado no topo da árvore. Por isso mesmo a reação destes pais devia ter sido de incredulidade, de quase histerismo e muito pânico. Mas foi muito calma. Eles acabam por "aceitar" com demasiada normalidade o que até então desconheciam. O resgate do filho da árvore, cujo aprisionamento já estava a decorrer desde que eles ainda estavam sentados à mesa do jantar, é feito com rapidez e facilitismo, quando no filme original foi uma luta maior e o público sente receio que estes não cheguem a tempo, que a criança não se salve e que a árvore faça algo terrível.

No original a família tinha reparado no comportamento estranho do cão (aqui não há cão), que ladrava no meio da noite para a parede e ia buscar a bola do nada. Já tinha vivido a experiência das cadeiras da cozinha a se movimentarem sozinhas de uma ponta à outra. As luzes piscaram sem explicação e a filha caçula estava constantemente a falar sozinha com o seu «amigo» que só ela via. Existiram bases para os pais acreditarem com mais facilidade no que viria a seguir: o desaparecimento da filha e a sua presença dentro da televisão, quando sem emissão. Nesta nova versão, existe um bónus: a sombra de uma pequena mão aparece de dentro da TV, para estabelecer contacto.  


Nem nestas circunstâncias, nem depois quando estes pais tomam consciência que a filha Madison não está em parte alguma e sua voz surge de um monitor de TV, eles sentem pânico. Aquele instinto de correr e acudir, salvar o quanto antes, é uma aposta fraca. A solução é chamar peritos em paranormalidade. O que aqui é feito com rapidez, sem idas a faculdades, e a descoberta do poltergeist é rapidamente efetuada, sendo prontamente chamado o melhor especialista para lidar com a situação: Carrigan Burke, o «limpa casas» tornado celebridade pelo programa de TV.

O filme então desenrola-se dentro dos parametros normais. Mas tem alguns twists que valem a pena mencionar. O "outro lado" é visto pelo público, como sendo as trevas no cenário da própria casa. Madison está nessa dimensão. Não existem espectros filmados a descer as escadas - que causa impacto no original e lhe dá um toque de magia, mas cá está: fica bem lá na década de 80, contextualizado com os relógios de pulso antigos. 


Aqui a cena de alucinação também é vivida pelo assistente mais céptico, quando este vai instalar dentro do armário um aparelho medidor. Embora não seja  o rosto a deteorar-se, a cena assusta um pouco. Neste remake o papel da mãe enfraquece e o de irmão ganha força: é a criança, por se sentir responsável por ter deixado a irmã sozinha no quarto, que entra dentro do armário que é o portal para a outra dimensão. Entra sozinha, seguindo a corda que desta vez não é mantida esticada por força manual e sim fixa na parede por um acessório (que facilmente as forças paranormais podiam desatarrachar, se o desejassem, o que acaba por acontecer). Griffin entra no mundo que o aterrorava, enfrenta os seus medos e salva a irmã, sendo os dois depois resgatados na sala e levados para a banheira com água. Esta alteração impede-nos de ver outro dos momentos fortes do filme, de levar às lágrimas, que é o desespero do pai ao ver tanto a filha quando a esposa inanimadas na banheira. Mas não é um grande pecado. Neste remake a adolescente não sai de casa para voltar depois e deparar-se com o expoente máximo da paranormalidade (cá está, não existe hoje a independência de antes e a internet veio a preencher um pouco a necessidade de estar com outras pessoas). A família procura fugir de carro, sem que cadáveres ou caixões alguma vez surjam na trama. E não fazem falta.

No instante que vão partir, a filha caçula informa-os de que as almas não foram embora, porque ela não as conduziu "até à luz" e por isso, estavam zangadas. De imediato o carro é puxado para dentro da sala, atravessando a parede, a casa começa a manifestar-se e Madison voa pelos ares até chegar de novo ao interior do armário. O limpador de casas resolve salvar aquela família e «sacrificar-se», ao decidir ser ele a entrar na outra dimensão para mostrar o caminho da luz às almas perdidas.

O boneco palhaço (Bonzo) com o seu nariz de corda, ganha mais pontos nesta versão 

Mas como a tecnologia evoluiu muito, todos ali tinham um localizador GPS e no final, a mulher que primeiramente foi consultada pela família para solucionar o caso - que agradavelmente acaba por ser, também, ex-esposa do «limpador de casas», o que devolve ao filme uma pitada da cumplicidade que "Diane" obtia quando conhecia mais a fundo as pessoas que estavam na sua casa. 

No final a família foge, no mini-carro da dra. Brooke, a ex-mulher do limpador, e o filme não termina com a cena deles os cinco mais o cão a fazer o check-in num motel e a empurrar a televisão para fora do quarto. O novo final também é bom, embora o tempo todo me tenha deixado com algumas questões quanto à sua veracicidade. O filme termina não nessa noite, mas na manhã seguinte, com a família, ainda a conduzir o carro da dra. Brooke, a ir conhecer uma nova casa para alugar. Muito espaçosa, com quartos no sótão, muito espaço nos armários e uma grande árvore centenária para «proteger» a casa. Uma luxuosa moradia em tudo parecida à que acabaram de perder. E por isso mesmo resolvem fugir dali o quanto antes, deixando a mediadora a falar sozinha. 


As interrogações com que me deixa este final são: onde foram estes pais, ambos desempregados, buscar dinheiro para alugar uma outra casa daquelas dimensões? Além de desempregados, tinham acabado de perder tudo o que possuiam. E no banco não tinham nada. Todos os cartões de crédito eram recusados na caixa de supermercado e nem conseguiam ter o suficiente para comprar um telemóvel á filha adolescente. Estavam a contar cada tostão! Mas é tão fácil assim, na América de hoje, obter empréstimos quando nem o carro lhes sobrou como posse? 

Outra coisa que me deixou com dúvidas foi o paradeiro deles durante a noite. Terão conduzido durante horas até ter amanhecido? E como decidiram, nesse espaço de tempo, entrar rapidamente em contacto com uma mediadora e foram logo ver uma outra casa para morar? Não têm pais, as crianças não têm avós, tios, parentes, a quem podiam ter contado o sucedido e pedir uma ajuda provisória, nem que fosse para abrigo das crianças? Não foi preciso se refazerem do choque de tudo aquilo? No filme original isso percebe-se, só no simples acto da família, de rastos, ir descansar para um motel. Neste fica a dúvida  sobre o que fizeram até amanhecer.

Este Remake de Poltergeist honra o seu antecessor e tem todos os ingredientes para virar um filme de culto. 

Ex-Machina: PREVISÍVEL, mas bom entretenimento


4 estrelas (10)


Ao contrário de  muitos, que presumo terem ficado maravilhados com este filme, esse não foi o meu caso.

Não me interpretem prematuramente: gostei do filme. Mas não me trouxe realmente nada de novo. O que mais gostei nele, foram as interpretações. Principalmente do tipo que fez de criador das criaturas robóticas (Nathan). 

Da história e do desencadear dos acontecimentos? Não, nem por isso. Porque tudo é previsível e tudo o que foi mostrado neste filme, já surgiu noutros também. E a previsibilidade do final solidificou todas essas sensações contínuas que ver o filme estavam a produzir.

Sei que tem como base um livro - que nunca li. Mas não é necessário ler para conhecer a história. Talvez porque outros filmes do género existiram, ou histórias parecidas existiram. Robôs femininos que são usados para sexo não tem qualquer novidade. Nesse sentido, o filme A.I. - Inteligência Artificial, prima pela sua originalidade: os robôts têm uma história, uma vida, um propósito multitask. No filme, surge um robôt menino para preencher a carência afetiva de uns pais. 


 Neste Ex-machina, são criadas jovens mulheres hiper-atraentes, não só pelo desafio de o conseguir - claro está, um argumento sem dúvida válido. Não tão válido é ficar-se pelas mulheres super sexys para usar para sexo. Sim, tinham de ser... porque é o clássico cliché.

Como se todo o homem fosse heterossexual e não pensasse noutra coisa. Como se fosse improvável que um gay andasse nesse mundo dos algoritmos, da criação e do poder supremo - desejando por isso, quem sabe, também construir uns robôts machos com uns sexy rabinho e pénis.




Os diálogos são brilhantes - principalmente os do criador. Mas a história em si não traz nada de novo. Os efeitos especiais não são impressionantes e a Sexy Robot (Ava) não pretende para si algo que ninguém tenha visto antes: ela pretende escapar do laboratório e mesclar-se com a humanidade. Durante a história, existem uns "blackouts", umas quebras de energia, durante as quais o criador perde qualquer forma de vigiar por audio e video a sua criação. 


É óbvio assim que surge o primeiro apagão, que quem os causa é a sexy robot. E me pareceu também óbvio que o criador (Oscar Isaac) percebeu isso e, como tal, temia a inteligência ou malícia que podia estar naquela robot. Que uma pessoa tão inteligente não tivesse um gerador para restaurar a energia, ou não obtivesse outros meios de continuar a vigiar a sua criação durante esses apagões, é que é totalmente inaceitável. Reparem bem: o homem constrói uma réplica perfeita de um ser humano, em todos os sentidos, através de porcas e parafusos. Mas não sabe manter um sistema de vigilância a funcionar durante uma quebra de energia? Nem ter câmeras com bateria e visão noturna? É muito conveniente! E uma falha indesculpável.

Pareceu-me sensato que ele a mantivesse dentro de casa, com um nível de segurança adequado. É um robot acabado de criar, por cristo! Não é um brinquedo inofensivo... Até um brinquedo - assim como um eletrodoméstico, são testados antes de serem disponibilizados para o mundo. Portanto, não existiu nenhum clima prévio que tenha feito o espetador sentir pena e compaixão pela sexy robot e suas condições de existência.

Claro, chega um rapaz jovem, disponível para o amor, mente aberta... Afinal, foi escolhido por isso mesmo. E faz cagada. Estraga tudo ao se deixar levar pelas palavras de uma... robot. E virou-se contra o humano, o criador, seu chefe, que andes admirava por seus feitos precoces. Foi confiar num pedaço de metal ao qual foi apresentado 48h antes...


O final, como já disse, não foi surpreendente, por ter sido totalmente previsível. O rapaz arma um esquema para «libertar» a robot, enganando o criador. Este percebe tudo e conta-lhe o real propósito pelo qual foi convidado a estar ali. Mesmo assim, o jovem rapaz sente-se usado e enganado pelo chefe, mas não entende nada do que lhe foi explicado. Não percebeu que foi manipulado pela sexyrobot. Porque logo a seguir, fica a observar o comportamento dela, já livre, no processo de ganhar uma aparência mais humana. Entretanto, esta robot já tinha manipulado uma empregada doméstica super-sexy a atacar o criador. Afinal, ela também era uma robot, e isso o público percebe de imediato, praticamente na primeira cena, mas o estúpido do rapaz, alienado do ambiente em que se insere, só percebe o óbvio quase no final. E isso, a meu ver, é mais uma falha imperdoável na história. Afinal, aquelas são mentes brilhantes! O rapaz foi escolhido pela sua capacidade de analise comportamental e, no entanto, peca para perceber o óbvio.

Nem quando o criador reproduz os movimentos com os quais programou a robôt,
o empregado desconfia que ela é, como o espetador sabe desde o início, outra robôt.

A robot «soldado» é a primeira a atacar o criador, espetando-lhe na barriga a faca que usava para cortar legumes. O criador ainda tem um gesto de defesa e, com um tubo que deve ser composto de uma liga superespecial, bate na face da robot-soldado, que perde parte do maxilar e cai inanimada no chão. Mais uma vez aqui o guião falha pela conveniência, porque o que é que ele faz a seguir? Fica a olhar para o chão, para o robot caído, de COSTAS para a robot que desencadeou toda aquela revolução. Fica assim, de costas... e é então que a SexyRobot lhe espeta a mesma faca nessas costas. 

Ah, robots assassinos! Foi isto que ele andou a construir. Daí todo o sistema de segurança e o local longínquo que escolheu como sede para as suas experiências. Burro ele não era, foi apenas neste pormenor de ir enfrentar duas robots durante um motim, achando que só com a força da voz ia fazê-las obedecer-lhe...

O idiota que causou tudo isto - o jovem rapaz, só no último instante entende que foi usado pela sexyrobot, porque esta tranca-o e afasta-se, fazendo ouvidos surdos às suas súplicas para ser libertado. É então que o idiota percebe que o único humano além de si, naquele local, jaz morto no corredor.



Deixou-se levar pelo rosto plástico de uma robot sexy... danou-se. 
Robot essa que, não sentiu a mínima compaixão por todos os outros modelos robots que encontrou depois, aquando o seu livre acesso por todo o complexo. A uma tirou o braço, pois o seu havia ficado danificado, a outra retirou toda a pele, a outra roubou o vestido. E à soldado que incitou à revolta, deixou partida e avariada no chão.


E assim, o futuro da humanidade adivinha-se "bonito"...
Com uma robot indestrutível e sem moral, completamente camuflada de humana, solta por aí... Já com uma morte nas costas e nenhum remorso ou vestígio de emoção ou arrependimento. 


A julgar pelas críticas que encontrei online, este é um filme sobrevalorizado. 
#Exmachina perde para:


-Exterminador Implacável
- A.I.
- Planeta Proibido
- Distrito 9 (que fez os corpos dos "gafanhotos" mais realistas que este robot)
- A fuga de Logan 
- Blade Runner


Porque todos eles, de uma forma ou de outra, criaram mais emoção com seus robots e proporcionaram mais acção e saltos no enredo. 

Críticas com as quais concordo:
Wired


 
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